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Hard Science: da bancada de laboratório até o mercado
16/11/2021

Hard Science: da bancada de laboratório até o mercado
16/11/2021

Entenda o que são as Hard Sciences e como elas têm ganhado cada vez mais destaque no ecossistema de inovação

 

Startups de hard science

Hard science, em uma tradução livre, significa ciência dura. Este termo condiz com a realidade do setor, que representa áreas que demandam estrutura, muito tempo, estudos complexos e ensaios clínicos, além de dependerem de rígidas regulamentações e correrem altos riscos no seu desenvolvimento.

É o contrário do termo soft science, que, também em tradução livre, significa ciência suave. Este setor tem como objetos de estudo itens que não necessitam tanto de laboratórios ou equipamentos e insumos tecnológicos quanto as hard sciences.

De acordo com o ThoughtCo, hard sciences englobam física, química, biologia, astronomia, geologia e meteorologia, enquanto as soft sciences estudam psicologia, sociologia, antropologia e arqueologia, por exemplo. O G1 vai além e afirma que o termo hard sciences se refere às ciências voltadas ao estudo do mundo natural e, por isso, essa “família” também é conhecida como a das ciências da natureza.

É importante frisar a importância de ambas. A maior complexidade de desenvolvimento das hard sciences não as elencam como mais importantes. Cada área tem sua particularidade e o seu papel na sociedade.

 

Importância das hard sciences

Imagine o mundo em que vivemos sem todos os avanços das áreas de engenharia, tecnologia da informação, medicina… Este é basicamente um cenário sem as hard sciences, responsáveis pelo desenvolvimento destas e outras áreas essenciais para o dia a dia dos seres humanos. Medicamentos, automóveis e aparelhos eletrônicos são exemplos de objetos que permeiam a vida humana na maior parte do tempo e são provenientes hard sciences.

Além de reconhecer o valor do que já foi conquistado em termos de evolução, é necessário também criar uma mentalidade que entenda a importância do desenvolvimento de novos projetos que tragam soluções à vida das pessoas.

A importância das hard sciences pode ser traçada por meio de um paralelo entre a quantidade de startups existentes em um determinado país e o seu nível de desenvolvimento.

Segundo o estudo The Dawn of the Deep Tech Ecossystem, ainda em 2018, o Estados Unidos já contava com mais de 4.000 startups de hard science. Embora ainda não existam dados de 2021, o crescimento de investimentos de 20% anuais no setor indica que o número de negócios também cresceu.

No Brasil, de acordo com um estudo da Liga Ventures de maio de 2018, as hard sciences eram 15% de todas as healthtechs no Brasil, atrás apenas de sistemas de gestão, que correspondiam a 17% à época.

Este número se torna significativo quando percebemos que, de acordo com o StartupBase, as healthtechs são 5,44% das startups no Brasil, o terceiro maior segmento do país, atrás apenas de Educação e Finanças. Esta porcentagem significa 737 empresas registradas como healthtechs e, consequentemente, 110 startups de hard science. Os números podem não ser tão bons quanto gostaríamos, mas evidentemente estão em crescimento.

 

Etapas de desenvolvimento das hard sciences

As etapas de desenvolvimento das hard sciences são variáveis, uma vez que vários segmentos diferentes compõem este mesmo setor. Entretanto, alguns métodos para avaliar as fases da evolução são universais e podem ajudar a entender cada degrau a ser vencido pelas empresas.

Technology Readiness Level

Um dos métodos de avaliação mais comuns, senão o principal, é o Technology Readiness Level (TRL), ou Níveis de Prontidão de Tecnologia, em uma tradução livre.

O TRL é um método criado pela NASA para avaliar a maturidade tecnológica de um projeto. Ele se baseia numa escala de níveis que vai de 1 até 9, sendo este segundo o nível mais avançado de uma tecnologia.

O nível 1 representa a pesquisa básica de um elemento, enquanto no 2 já existe a formulação do conceito deste elemento, logo após seus estudos práticos. Já o 9 é para quando a tecnologia já foi implementada e se mostrou eficaz.

Independentemente da natureza da tecnologia, o TRL pode ser utilizado para sua avaliação. Desta forma, investidores e demais players que não tenham profundidade técnica podem analisar tecnologias com mais segurança e uniformidade.

 

Key Performance Indicator

Os Key Performance Indicator (KPI) ou, em uma tradução livre, Indicadores-Chave de Performance, são uma ferramenta de gestão que analisam os aspectos mais importantes para um negócio.

Portanto, cada empresa ou startup tem seus próprios indicadores, de acordo com seu grau de maturidade, do seu setor de atuação e até mesmo da sua estratégia. A definição dos KPIs de um negócio é feita a partir da sua estratégia. Ou seja, cada empresa define quais são seus objetivos e estabelece metas para alcançá-los.

De tempo em tempo, avalia-se como está a evolução das métricas destes objetivos e, a partir do resultado, a estratégia é novamente repensada. No início do negócio, por exemplo, os KPIs serão, em sua grande parte, voltados à estruturação e ao desenvolvimento. Com início de vendas, quando for o caso, eles podem se voltar aos índices mercadológicos ou ao relacionamento.

Desta forma, além dos números indicados nos KPIs, as escolhas de quais indicadores serão utilizados podem servir como base para avaliar a etapa de desenvolvimento de uma startup.

 

Barreiras para as hard sciences

Como o próprio nome deixa claro, desenvolver hard sciences não é fácil. Os desafios começam logo no início do projeto, já que demanda estruturas qualificadas para seu desenvolvimento. Listamos alguns dos principais desafios enfrentados pelas startups de hard science e algumas formas para transpor estas barreiras.

 

Necessidade de maiores investimentos

Um dos principais desafios enfrentados pelas hard sciences é a necessidade de grandes investimentos, tanto financeiros quanto de tempo, coisas que acabam andando lado a lado neste âmbito. Por serem tecnologias mais complexas, o tempo de desenvolvimento é naturalmente maior, o que faz com que pesquisadores precisem dedicar muitos anos de sua vida antes de começar a ter retorno financeiro com o projeto. Desta forma, é necessário investimento não somente para a evolução do projeto, mas também para que o pesquisador se mantenha.

Este momento, onde o pesquisador tem um déficit financeiro muito grande, é chamado de Vale da Morte, justamente por ser a etapa que marca o fim da trajetória de muitos projetos.

Atualmente existem diversos programas de incentivo ao desenvolvimento de novas tecnologias, desde chamadas públicas, como os programas Pipe Fapesp e o Finep Startup, e a subvenção, que é o investimento feito pelo Governo e não demanda reembolso, até iniciativas privadas. Alguns destes programas são focados especialistas em hard sciences, como o Programa de Desenvolvimento de Negócios, que oferece um programa mais longo e focado em particularidades do setor, de acordo com as necessidades destas startups.

 

Investidores sem conhecimento técnico

A necessidade de maiores investimentos se torna um problema ainda mais complexo uma vez que os investidores têm dificuldades para entender as tecnologias mais profundas, o que acaba os afastando delas.

O TRL, acima citado, é uma forma de auxiliar os investidores a entenderem a etapa de desenvolvimento de uma tecnologia. Além disso, destaca-se o papel de hubs como o BiotechTown, que podem fazer a conexão entre investidores e startups/pesquisadores, com sua equipe técnica funcionando como uma ponte.

 

Inserção no mercado

Uma das maiores dificuldades de pesquisadores é fazer a conversão universidade-empresa, ou seja, tirar sua tecnologia da academia e levá-la ao mercado. O mindset empreendedor no universo da pesquisa científica é fundamental para o desenvolvimento de uma startup e pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

A Dra. Juliana Saliba, PhD nas áreas Engenharia Metalúrgica e Engenharia Minas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e médica, pelo Institut National de la Recherche Médicale et de la Santé – INSERM, Paris, escreveu um artigo que serve como um guia para pesquisadores que desejam mudar sua forma de fazer pesquisas com vistas ao mercado.

 

Estrutura

O acesso a estruturas qualificadas é essencial para o desenvolvimento de tecnologias. Os pesquisadores que estão inseridos em universidades normalmente possuem direito a utilizar seus laboratórios. Porém, uma vez que desvinculam seu projeto do meio acadêmico, acabam enfrentando a escassez estrutural.

Iniciativas como o Open Lab, laboratório compartilhado que pode ser acessado por empresas ou pesquisadores, podem ser a solução para quem está à procura de uma estrutura qualificada e certificada para dar continuidade ao desenvolvimento de suas tecnologias.

 

Propriedade Intelectual

Para quem está começando um primeiro projeto em hard science, um dos pontos de maior dificuldade no desenvolvimento é a propriedade intelectual envolvida. Muitas vezes ela nem mesmo existe, e quando existe pode estar vinculada ao Instituto de Ciência e Tecnologia onde a startup se iniciou. É necessário ter atenção e redigir de maneira eficaz a propriedade intelectual para dar segurança ao projeto.

 

Hard science e heatlhtech

Embora tenham características muito semelhantes e em alguns momentos até sejam tangentes, startups de hard science e healthtechs não são a mesma coisa. Healthtechs são startups que utilizam a tecnologia em prol da saúde, mas não necessariamente passam por hard science, já que podem ser startups de logística, por exemplo.

Da mesma forma, uma startup de hard science pode sim ser uma healthtech, mas não é uma regra, visto que as ciências duras também possuem objetos de estudo que não são diretamente relacionados à saúde, como geologia e meteorologia.

 

Cases de sucesso de startups hard science

O setor de startups de hard science já é estruturado e é comum encontrar cases de sucesso. Seja medido por valores financeiros ou por resultados alcançados em termos de entrega à sociedade, podemos observar diversas startups do setor se destacando.

 

Unicórnios

De acordo com um levantamento do CB Insights de unicórnios – termo dado a startups que atingem valor de mercado superior a U$1 bilhão – no mundo, destacam-se várias startups de hard science, como Bioscplice, avaliada em U$12 bilhões, Roivant Sciences, U$9 bilhões, e Tempus, U$ 8,1 bilhões.

Ainda analisando o levantamento, existem 55 healthtechs que se tornaram unicórnios. Destas, 26 – ou cerca de 47% – são empresas de hard science, o que confirma o potencial de evolução deste segmento.

O Brasil, por enquanto, tem somente 18 unicórnios e nenhum deles é hard science, mas este segmento vem ganhando muito destaque, principalmente em um cenário pandêmico onde a ciência se mostrou essencial.

 

Entregas à sociedade

Outra forma de medir sucesso é a relevância da marca para a sociedade, e neste segmento as hard sciences se destacam ainda mais. Veja abaixo alguns exemplos de startups que foram relevantes nos últimos meses, em momentos de pandemia:

A Aclin, startup criadora do Aclin-Check, dispositivo multifuncional que calibra equipamentos médico-hospitalares, doou cursos aplicados e cedeu seus dispositivos para reparar ventiladores mecânicos para pacientes de Covid-19 em abril de 2020, no início da pandemia. O trabalho voluntário continua ativo até a publicação deste artigo.

A Cepha Biotech desenvolveu o OmniLamp, a princípio um dispositivo para detecção de arboviroses (dengue, zika, chikungunya) e leishmaniose que, em abril de 2020, foi adaptado para diagnosticar Covid-19, sendo um dos primeiros dispositivos para teste do mundo.

Outros exemplos de trabalho que embora indireto é essencial para o combate à pandemia é o de startups que trabalham com a produção de kits diagnósticos ou de insumos para a fabricação destes, como a Recombine Biotech e a Rheabiotech.

 

Hard Science: vale o risco?

O ecossistema de inovação é complicado para qualquer segmento. A cada 10 startups que se iniciam ao redor do mundo, somente uma realmente vira um negócio estável e de sucesso. No segmento de hard science é ainda mais complicado por todas as particularidades citadas.

Porém, o sucesso é proporcional à dificuldade. Transpor o vale da morte quando se tem um projeto de “ciência dura” é sinônimo de sucesso. Por se tratar de tecnologias disruptivas, em quase todos os casos, é muito provável que o investimento aportado na startup irá se multiplicar grandemente e que o projeto terá um impacto positivo na sociedade.

Não é à toa que este é um dos setores que mais crescem entre as startups e tende a ganhar cada vez mais notoriedade e, consequentemente, a atenção de investidores.

 

Se você tem uma startup ou uma ideia que quer começar a desenvolver, fale com os especialistas do BiotechTown e receba uma avaliação gratuita do seu negócio para saber como evoluir.

 

 

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