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Ecossistema de inovação: do “Match” ao relacionamento
12/04/2021

Ecossistema de inovação: do “Match” ao relacionamento
12/04/2021

Por Carlos Emmanuel Montandon

 

Conheça os atores que compõem uma rede de inovação e suas formas de relacionamento que suportam o ecossistema

 

O termo “deu match” se popularizou devido ao uso do Tinder – um aplicativo de relacionamentos – sendo considerada, devido à utilização em diversos assuntos, uma expressão idiomática moderna. A palavra match é de origem inglesa e significa combinação. Portanto, quando se dá o match no app, quer dizer que duas pessoas possuem afinidades, podendo evoluir de um mero contato para um relacionamento. Trazendo esta expressão para o ecossistema de inovação, o match poderia acontecer entre os atores deste ecossistema e de forma análoga às afinidades proporcionadas no Tinder, seriam os atributos e necessidades que promoveriam a combinação.

O ecossistema de inovação é o ambiente que reúne diversos atores e promove interações e a cooperação entre eles para utilizar a inovação como uma ferramenta para impulsionar o desenvolvimento econômico e social.

Os atores são diversos e as necessidades e atributos exponenciais a estes, formam uma rede variável e de inúmeras possibilidades. Estes “sujeitos”, devido às características padrões, podem ser enquadrados em categorias e, dentre estas, podemos destacar algumas mais comuns quando abordamos a inovação tecnológica – Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs), startups, incubadoras, aceleradoras, hubs de inovação, investidores, grandes empresas e poder público.

 

Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) e o cenário acadêmico

As ICTs, por definição da Rede de Centros de Inovação em TIC (REDETIC), “são entidades sem fins lucrativos do setor público ou privado, as quais executam atividades de pesquisa básica e/ou aplicada de caráter científico ou tecnológico”. No Brasil, embora estes trabalhos tecnocientíficos possam ser desenvolvidos no setor privado, em sua maioria estão vinculados à administração pública, muito pelo caráter educacional superior brasileiro, cujas universidades, faculdades e institutos de educação concentram este desenvolvimento.

Neste cenário acadêmico ainda existe uma enorme defasagem na educação e cultura empreendedora, contudo esse fato vem mudando nas últimas décadas, com novos incentivos pautados, principalmente, em investimento, cursos e disciplinas, os quais estimulam toda a classe – desde estudantes a professores – a empreender. E mais do que empreender, a enxergar as oportunidades de aplicar suas pesquisas de forma mais concreta e conclusiva, mudando a vida das pessoas, pesquisas que outrora constituíam apenas a base da ciência. Neste sentido, os matches são inúmeros. Já é bem estabelecido na comunidade científica brasileira a captação de recursos vindos de fomento público e, mais recentemente, da iniciativa privada. Entretanto já vêm sendo praticadas outras formas de subsídio para o desenvolvimento tecnológico, seja pela constituição de parcerias no co-desenvolvimento em algum trabalho, transferência de determinadas tecnologias para as grandes empresas, captação de investimentos diretos ou a própria criação das startups. Sendo a última opção a quebra de todos os padrões com o ambiente acadêmico já estabelecido.

 

Startups

E o que são as startups neste ecossistema de inovação? Diversas são as abordagens, mas basicamente ela é uma empresa emergente, cujo objetivo é desenvolver ou aprimorar um modelo de negócio, que seja preferencialmente inovador, escalável e repetível. Quando se trata de empreendimentos de base tecnológica, o próprio produto pode vir a ser o modelo de negócio em desenvolvimento ou aprimoramento.

As startups podem ser consideradas o ponto central da rede de interações no ecossistema de inovação tecnológica, pois se relacionam, de forma mais direta, com todos os outros atores que constituem a rede, inclusive outras startups. Ela assume este papel porque é a porta de entrada, de forma mais sólida, para o empreendedorismo, possibilitando acesso ao mercado aquele pesquisador que quer ver sua tecnologia de anos de desenvolvimento fora dos muros de um ICT ou aquela pessoa com desejo de consolidar suas ideias e sonhos empreendedores em algo substancial. Independente do sujeito, essa mudança de drive demonstra a vontade que se converte em visibilidade, dos atributos empreendedores e inovadores para distintos membros do ecossistema, gerando, consequentemente, oportunidades. É uma afirmação: “olhaaa, estou aqui!!!”. Desta forma os matches acontecem.

Essa tomada de decisão pode ser muito recompensadora, trazendo resultados incríveis para os empreendedores. Entretanto o caminho, na maioria das vezes, é bastante árduo. Mas nem todo trilha precisa ser tão tortuosa, para isso existem ambientes, que ajudam estas novas empresas a se desenvolverem. São as incubadoras, aceleradoras e, mais recentemente, os hubs de inovação, que desempenham esse papel. Todos eles auxiliam as startups nos estágios iniciais de seus negócios, reduzindo, dessa forma, o tempo para amadurecimento da empresa. Muito desse know-how de identificar “o caminho das pedras” é devido à bagagem implícita ao time destas instituições de inovação, muitas vezes formado por pessoas que estão há anos nesse mundo ou até mesmo já empreenderam.

O amadurecimento da startup, seja em um ambiente inovador ou por si mesma, induz os empreendedores a darem os próximos passos, não mais baby steps, mas a busca por um investimento, seja para um desenvolvimento mais robusto da tecnologia ,quando se trata, por exemplo, de ensaios clínicos; tracionamento com uma estratégia Go-To-Market mais arrojada; ou ainda o escalonamento de sua produção. Mesmo que os empreendedores possuam capital para Bootstrapping (investimento próprio), chega a um ponto da necessidade, na maioria das vezes, de pleitear um investimento.

 

Aceleradoras e incubadoras

As principais características que diferenciam as aceleradoras das incubadoras é o fato delas investirem capital direto em troca, geralmente, de equity (participação acionária). Consequentemente, esse fator leva a processos amplamente concorridos entre as startups, além de possui um caráter de dedicação, por parte da aceleradora, bastante intenso, com mentorias e networking. Essa atuação proporciona a identificação de gargalos da empresa e a levando de um ponto “A” a um ponto “B”, específico para cada empreendimento.

 

Hubs de inovação

O terceiro agente mencionado neste contexto, o hub de inovação, se distingue dos demais por concentrar em um único ambiente a aceleração do negócio, o desenvolvimento e/ou aperfeiçoamento tecnológico e, por fim, a produção. Muitos projetos que saem dos ICTs, necessitam de aprimoramento e finalização, processos que são custosos, principalmente quando se trata de Hard Science.

A exemplo deste modelo, o BiotechTown, é um hub de inovação em Biotecnologia e Ciências da Vida, o qual possui três pilares, que fecham as necessidades do desenvolvimento como um todo. Estes pilares são: o Business Developer, que funciona como uma aceleradora; o Open Lab, que é um laboratório compartilhado, possibilitando o desenvolvimento e aprimoramento biotecnológico; e o CMO (Contract Manufacturing Organization), uma planta produtiva para fabricação de lotes-pilotos e lotes comerciais. Esse tipo de estrutura centralizada ainda é escassa a nível mundial e, por isso, atrai todos os atores do mundo do empreendedorismo tecnológico, caracterizando uma segunda vertente como hub de inovação, o de agregador e unificador do ecossistema.

 

Investidores

Com o empreendimento, agora mais atrativo, é hora de tentar um match com os investidores. Existem diversos tipos de investidores que aportam capital em startups, podendo também aportar outros benefícios. Sendo que a escolha depende muito do nível da maturidade do negócio e/ou tecnologia. São eles:

(a) A forma mais básica de investimento, com exceção do Bootstrapping, seria o LoveMoney, que é um capital investido geralmente por familiares e amigosque acreditam no potencial do empreendedor e não necessariamente na startup;

(b) Uma modalidade similar ao LoveMoney, seria o Investimento-Anjo, que se trata de aporte financeiro por pessoas físicas. Entretanto, neste caso acredita-se não só no empreendedor, mas também no empreendimento;

(c) Já mencionadas, temos também, as aceleradoras e os hubs de inovação, os quais, além de dar todo o suporte em desenvolvimento do negócio e/ou tecnológico, investem capital direto no empreendimento;

(d) O Venture Capital (Capital de Risco), é um investimento maior e funciona por meio da compra de uma participação acionária – geralmente minoritária – da empresa;

(e) Já os investimentos Séries A, B e C, que em termos financeiros estariam na ponta da cadeia, são rodadas de investimentos, geralmente, com aporte milionário em startups, as quais possuem, nesta etapa, um modelo de negócio já consolidado, oferecendo menos riscos aos investidores.

(f) Por último, temos o SmartMoney, o qual pode constituir uma característica aos outros investimentos abordados. Ele é uma modalidade interessantíssima, pois conta com a expertise e networking oferecidos pelo investidor e não somente do seu capital. Este tipo de investimento é muito interessante, principalmente, para o desenvolvimento da startup.

 

Grandes empresas

Quando falamos de grandes empresas, há pelo menos três pontos de vista. O primeiro ponto são elas como alvos cobiçados e geradores de matches, tanto por pesquisadores dentro das ICTs quanto por startups, cujo objetivo pode ser a venda direta para elas (Business To Business) ou a transferência de tecnologia, co-desenvolvimento ou mesmo investimento direto. Ressalta-se nesse ponto a grande importância do setor empresarial consolidado como efetivo demandante por inovações.

O segundo ponto seria a grande empresa como agente fornecedor de insumos ou serviços para vários atores da rede, como ICTs, startups ou os hubs de inovação. O terceiro ponto contemplado seria o ápice para as startups, cujo crescimento e amadurecimento possibilita a atravessar o famoso “vale da morte”, se consolidar no mercado e finalmente alcançar o status de uma grande empresa.

 

Poder público

Por último temos o poder público que talvez seja, quando aplicado de forma correta, um dos mais atuantes agentes do ecossistema de inovação. São diversas as formas de atuação. O poder público por si só tem como função promover o bem-estar da população em todas as esferas. Este fato confere a ele uma forma quase “onipresente” quando se trata das relações mencionadas anteriormente, de forma direta ou indireta. De forma mais direta, existe a atuação nos fomentos da pesquisa em ICTs, incentivos de capital para as startups e as instituições vinculadas a elas (incubadoras, aceleradoras e hubs de inovação), além da compra direta de seus produtos. De forma indireta, o poder público pode agir com a desburocratização de processos e promover incentivos fiscais ao empreendedorismo inovador ou com a aceleração de tramites de regulamentação e proteção intelectual quando se trata de estruturas e produtos tecnológicos.

 

Conclusão

Visto os diversos atores do mundo da inovação tecnológica, observa-se as inúmeras possibilidades de relações, os matches possíveis, pautadas em atributos e necessidades. Cada um possui características únicas e dessa forma funções singulares e fundamentais, ora doando ora recebendo. Essas interações e trocas constituem a rede de relacionamentos, deixando-a extremamente resistente, possibilitando a sustentação de um ecossistema empreendedor saudável. Consequentemente, esta particularidade do ecossistema promove a inovação e o progresso empreendedor evitando também a estagnação tecnológica contribuindo para a manutenção e o bem-estar da sociedade.

 

Sobre o autor

Carlos Emmanuel Montandon é PhD e mestre em Bioquímica pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Possui experiência docente pelo Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFV e atualmente é Agente de Desenvolvimento de Negócios no BiotechTown.

 

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